Hotel Tambaú – um divisor de águas na história do turismo paraibano foi retirado do Leilão Judicial

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O emblemático Hotel Tambaú, marco da arquitetura moderna em João Pessoa – PB, que iria a leilão nesta quinta-feira (10) tem história que remete a um passado, recente, de muitas conquistas. Vamos ver um pouco da história desse edifício, partindo de uma reconstituição histórica dos meios de hospedagem no mundo, no Brasil, no nosso estado e na nossa cidade.

Os mais antigos registros sobre hospedagem organizada remontam à Grécia, quando os atletas dos Jogos Olímpicos abrigavam-se em hospedarias. Na Idade Média, as abadias e os monastérios davam guarida aos viajantes, que eram em sua grande maioria peregrinos e comerciantes. No século 17, no ano de 1870, Paris inovava ao criar o primeiro hotel no estilo dos atuais, o Ritz, construído pelo suíço César Ritz.

O surgimento dos meios de hospedagem no Brasil teve início com a chegada dos portugueses no país. No Sistema de Capitanias Hereditárias, cabia a cada donatário dotar a sua capitania de hospedarias. Documentos históricos atestam que a cidade de São Paulo foi um marco na história da hotelaria no Brasil, graças ao pioneiro Marcos Lopes.

O  primeiro hotel da cidade de João Pessoa, nos padrões semelhantes aos atuais, foi o Hotel Globo. Inicialmente construído no ano de 1909 com o nome de Hotel Central, na antiga Rua dos Ferreiros – atual João Suassuna -, foi transferido em 1929 para a casa de seu proprietário, o hoteleiro Henriques Siqueira, conhecido como “Marinheiro”, no Pátio São Frei Pedro Gonçalves. Em estilo eclético, foi palco para festas de gala e hospedou grandes personalidades do país.

Depois do Hotel Globo, surgiram o Hotel Luso-Brasileiro, construído em 1916, e o Parahyba Hotel, de meados dos anos 30. Quando esses hotéis começaram a entrar em decadência, empresários paraibanos buscaram o caminho da praia para futuros investimentos turísticos. A praia de Tambaú (que na língua tupi significa “rio das conchas”), praticamente deserta mas com grande potencial turístico, foi a escolhida.

Com a pavimentação da avenida Epitácio Pessoa, no ano de 1952, a sociedade paraibana descobriu definitivamente o bairro de Tambaú, conhecido à época como Vila do Coqueiro. Em 1967, a calçadinha de Tambaú recebe mosaicos do tipo “Copacabana”, são colocados postes de iluminação e bancos em alvenaria. Começava uma nova história do bairro que se tornaria o mais famoso da cidade.

O fim dos anos 1960 e a década de 1970 foram marcados pela chegada de redes hoteleiras internacionais ao Brasil. Claro que a Paraíba, pobre em hotéis, desejou também ter um hotel que fosse destaque no cenário nacional.  Assim, em 1968, plena ditadura militar, João Agripino – que governou a Paraíba de 1966 a 1971 – resolveu construir um hotel de grande porte. O arquiteto carioca Sérgio Bernardes foi escolhido para conhecer a cidade e elaborar o projeto do hotel que pretendia criar uma imagem de progresso para impulsionar a capital paraibana no panorama brasileiro. Depois de visitar algumas praias para se construir o hotel, Sérgio Bernardes decidiu-se por Tambaú. Apesar da proposta arquitetônica robusta e arrojada em termos técnicos e da localização em terreno da Marinha, o projeto teve poucos opositores, pois na época pouco se falava em ecologia e preservação do meio ambiente.

O anúncio da construção do hotel, que já teria o nome de Tambaú, causou tanto impacto na sociedade pessoense que os poucos moradores de Tambaú, ajudados por alguns jornalistas e empresários, começaram um movimento pela independência do bairro, defendendo a criação do município de Tambaú, que exploraria o turismo como principal fonte de renda. Claro que a ideia não seguiu adiante.

O projeto de Sérgio Bernardes, inovador, arrojado e inédito no Brasil, prometia uma integração da praia com o hotel e satisfazia plenamente o que se queria no momento: um hotel espetacular que colocasse a Paraíba no cenário hoteleiro nacional. Esse objetivo foi alcançado sem sombra de dúvidas. Até hoje os livros de arquitetura trazem o Hotel Tambaú como objeto de estudo.

Na obra, que segundo a SUPLAN (Superintendência de Obras do Plano de Desenvolvimento da Paraíba) custou aos cofres públicos cerca de 10 milhões de cruzeiros novos, o arquiteto utilizou diferentes tipos de materiais que resistissem à ação das marés, do vento e do sol. Pensando também na forte incidência solar no lado oeste da construção, Sérgio Bernardes isolou o telhado com um imenso talude gramado. O projeto, que não contemplou a instalação de elevadores, tem rampas e escadas que ligam um pavimento ao outro. Outro ponto positivo do projeto é a integração do edifício com o meio-ambiente. Sua simplicidade e transparência, seu telhado coberto de grama, seus jardins internos e janelas de vidro passam uma impressão de leveza que cria uma relação tênue entre o hotel e a natureza à sua volta.

A inauguração aconteceu na noite do dia 11/09/1971, com a presença de convidados especiais, jornalistas e autoridades. O então ex-governador João Agripino, que deu início à construção, e o governador à época Ernani Sátyro, que concluiu a obra, prestigiaram o evento. Naquela noite, o cinema do hotel, que funcionava onde hoje é o auditório Sérgio Bernardes, exibiu filme intitulado “Aeroporto”.

O prédio, em seu arrojado formato circular com espetaculares arcos de concreto, tornou-se um verdadeiro cartão-postal de João Pessoa. E, como disse o governador Ernani Sátyro na época, por meio de sua construção “a Paraíba abria as portas para o turismo”. O Hotel Tambaú ligou, definitivamente, a orla paraibana ao centro de João Pessoa.

Depois de um curto período, não mais que dois anos, o hotel foi vendido à Companhia Tropical de Hotéis. A negociação, restrita ao governo do Estado, não teve concorrência pública e nada foi questionado acerca do assunto na imprensa.

 A partir de pesquisas em jornais da época, no Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e em sites na internet e de consultas feitas ao jornalista Wills Leal, concluo que a construção do hotel Tambaú foi um divisor de águas na história do turismo no estado da Paraíba. E o que dizer da questão ambiental relativa ao local escolhido para a construção do hotel? Ora, o Hotel Tambaú, uma singularidade da arquitetura brasileira, foi feito quando quase nada se falava acerca de meio-ambiente, ecologia e turismo sustentável.

Construído durante o governo militar, não foi vista nenhuma reação contrária por parte de jornalistas, ambientalistas ou da sociedade pessoense. Naquela época, João Pessoa era apenas uma província, sem nem ao menos um Plano Diretor. Não havia ilegalidade na construção e quem realmente mandava era o governo militar.

Naturalmente, hoje em dia, com a ação de ambientalistas, de indivíduos e organizações da sociedade civil e de leis de proteção ao meio-ambiente, não se permitiria a construção do hotel. Os ambientalistas se insurgiriam contra o projeto, por considerar a obra uma agressão à natureza e um escândalo em pleno século 21. E, para reforçar aquele pensamento e ações que aconteceram no Brasil no século passado, é pertinente lembrar que diversos edifícios e monumentos construídos no Rio de Janeiro, Recife e em outras capitais do nosso país, seguramente não seriam feitos por conta das leis ambientais da atualidade.

João Agripino, governador à época, fez duas obras realmente impactantes: o Hotel Tambaú e o bairro Castelo Branco – erguido sobre uma bela e rica porção de Mata Atlântica, que foi derrubada para a construção de centenas de casas. Entretanto, a ele se pode render a glória de ter inserido na Constituição Paraibana o artigo 229, que segue transcrito na íntegra:

Art. 229. A zona costeira, no território do Estado da Paraíba, é patrimônio ambiental, cultural, paisagístico, histórico e ecológico, na faixa de quinhentos metros de largura, a partir da preamar de sizígia para o interior do continente, cabendo ao órgão estadual de proteção ao meio ambiente sua defesa e preservação, na forma da lei.

  • 1º O plano diretor dos Municípios da faixa costeira disciplinará as construções, obedecidos, entre outros, os seguintes requisitos: a) nas áreas já urbanizadas ou loteadas, obedecer-se-á a um escalonamento de gabaritos a partir de doze metros e noventa centímetros, compreendendo pilotis e três andares, podendo atingir trinta e cinco metros de altura, no limite da faixa mencionada neste artigo; b) nas áreas a serem urbanizadas, a primeira quadra da praia deve distar cento e cinqüenta metros da maré de sizígia para o continente, observado o disposto neste artigo; c) constitui crime de responsabilidade a concessão de licença para a construção ou reforma de prédios na orla marítima, em desacordo com o disposto neste artigo. d) excetua-se do disposto nas alíneas anteriores, a área do porto organizado do Município de Cabedelo, constituída na forma da legislação federal e respectivas normas regulamentares, para as construções e instalações industriais

No ano de 2003, foi inserida a seguinte Emenda ao artigo 229:

CONSTITUIÇÃO DO ESTADO DA PARAÍBA 176 EMENDA CONSTITUCIONAL N° 15, DE 28 DE AGOSTO DE 2003

Acrescenta alínea d ao § 1º do art. 229 da Constituição Estadual. A MESA DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DA PARAÍBA, nos termos do § 3º do art. 62 da Constituição Estadual, promulga a seguinte emenda constitucional: Art. 1º É acrescentada alínea d ao § 1° do art. 229 da Constituição Estadual, com a seguinte redação: “Art. 229. § 1º d) excetua-se do disposto nas alíneas anteriores, a área do porto organizado do Município de Cabedelo, constituída na forma da legislação federal e respectivas normas regulamentares, para as construções e instalações industriais.” Art. 2º Esta Emenda Constitucional entra em vigor na data de sua publicação. Paço da Assembléia Legislativa do Estado da Paraíba, em João Pessoa, 28 de agosto de 2003. A MESA DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA: Deputado Rômulo José de Gouveia, Presidente – Deputado José Lacerda Neto, 1° Vice-Presidente – Deputado Ricardo Vieira Coutinho, 2° Vice-Presidente – Deputado José Aldemir Meireles de Almeida, 3° VicePresidente – Deputada Edina Guedes Wanderley, 4ª Vice-Presidente – Deputado Roberto Pedro Medeiros, 1º Secretário – Deputado Manoel Ludgério Pereira Neto, 2° Secretário – Deputada Giannina Lombardi Farias, 3ª Secretária – Deputada Iraê Heusi de Lucena Nóbrega, 4ª Secretária. • Publicada no Diário Oficial do Estado de 29 de agosto de 2003.

  

De acordo com o diretor da Companhia Tropical de Hotéis, Eduardo Pereira, o Hotel Tambaú teve sua dívida quitada e foi retirado do Leilão Judicial marcado para esta  quinta-feira (10).

Foto: o saudoso ex-professor da UFPB, Manoel Quinídio Sobral, pai desta jornalista, posando ao lado da construção do hotel Tambaú, no ano de 1969.

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