O que é ser uma vovó ou a síndrome do ninho vazio

Por Messina Palmeira

 

Estou aqui, ao lado deste companheiro de sempre, o meu computador (se é que uma máquina pode ser chamada de amigo), e pensando em minhas netas  (Maria Luisa, Catarina e Helena), quando resolvo falar sobre as minhas impressões acerca da condição de avó.

Bom, começo dizendo que eu sou completamente apaixonada pelas minhas netas e que esse amor não pede nada em troca. A minha neta mais velha, olhe que ela tem apenas quatro anos, Maria Luisa, é simplesmente encantadora. Como diz o meu amigo e jornalista Rogério Almeida, ela é ispilicute, nome dado no Ceará a meninas desinibidas, sapecas e precoces. Maria Luisa, claro que tem os exageros de uma avó, é tudo isso e muito mais.

Sempre desejei ser avó e até confesso: antes mesmo de ser uma avó de verdade, já tinha duas netas adotadas: Anésia, filha da saudosa Graça Campelo e Jéssica Palitot (filha de uma vizinha de apartamento quando nós morávamos no edifício Castellamare. As duas me chamavam de vovó, e eu gostava.

E o que é realmente ser uma vovó? Primeiro vem a preocupação na gestação: a gestante está gozando de boa saúde? O bebê está bem? Ele vem com saúde? Depois vem uma hora crucial: a hora do parto. A apreensão da avó contagia a todos: vovôs, tios e primos da criança que chega. Vai ser normal? Cesariana? Ninguém sabe. A expectativa é grande. Pelo meu gosto seria cesárea, pois isso de ter parto normal é para a coitada da vaca (ninguém dá bola para o que digo e até se escandalizam quando falo isso. E eles podem ter razão).

Nascido o bebê chegam as primeiras novidades: tem bebê que não pega o peito e mãe que chora por qualquer coisa. A avó fica ali, firme e forte, tendo de aparentar que está tudo em ordem, que está tudo bem. Ela sofre, mas não pode revelar. Se dá um conselho à mãe do bebê, escuta que a enfermeira é que sabe tudo. E a avó, coitada, encolhidinha no seu canto, se limita a passar gel nas mãos e esperar pela hora de colocar o netinho (a), no colo. A avó fica de plantão: qualquer precisão podem contar com ela. Ilusão de avó. A nova família já está com tudo estruturado: babá eletrônica, babá de verdade (uma fortuna), desmamadeira, hora de tomar sol, pai de plantão e tudo mais. Então o bebê cresce e crescem também as preocupações: o umbigo não caiu ainda, cólicas, primeiros dentinhos, febres, virose (tudo hoje em dia é virose, cuidado), gripes e muitas coisinhas mais. Os bebês crescem e a saudade também.

Quando meus filhos, que moram fora, chegam em nossa casa com suas famílias, a festa começa: aniversário, chá de bebê, tudo é motivo para comemoração. E quando finalmente chega o dia da partida… A síndrome do ninho vazio recomeça. Menina, eu logo fico deprimida e não consigo nem entrar no quarto que a querida família utilizou. Aos poucos, pelo meio da casa, vou encontrando pequenos objetos (meias, biquínis, bonecas, mamadeiras etc.) esquecidos por eles. E isso aumenta ainda mais a saudade. Junto tudo e coloco em um só lugar. Quando voltarem, vão encontrar tudo novamente. Isso me lembra a minha avó Leontina. Quando íamos a Patos, na hora da saída, ela dizia: “_Vejam se não deixam nada, pois as coisas de vocês só dão em vocês e não vão me servir.” Saudades da minha avó e do cheirinho que só a casa dela tinha.

Enfim, chega o dia em que a avó vai para a casa dos netos. Ao mesmo tempo em que está feliz, sente falta de suas coisas, do seu banheiro, da sua cama, enfim… De sua casa. Mas, ela está ali para matar a saudade e servir para alguma coisa. Até que se dá conta que é uma intrusa! Intrusa pois, de alguma forma, interfere no andamento do lar. O genro não pode andar de cueca pela casa, o quarto, mesmo sendo de hóspede, está interditado (lá dentro tem uma sogra), o casal, que antes podia namorar em qualquer canto, se limita a seu quarto e por aí vai. A pobre da avó quase pede desculpas por estar ali. Os netos, estes não! Eles adoram ter a vovó por perto.

Agora vem a melhor parte: acordar um dia cedinho com o neto (a) iluminando os seus olhos com uma pequena lanterna, no outro dia com uma linda canção do tipo “meu pintinho amarelinho”, ou pulando em cima de você.  Eu posso afirmar: não tem felicidade maior que ser acordada por um neto (a) lhe chamando de vovó. Maria Luisa, numa destas minhas idas a São Paulo e sabendo que eu estava prestes a viajar, me confessou: “_Como vou viver sem você, vovó?”. Criatura, isso é muito lindo.

A síndrome do  ninho vazio continua: a casa fica enorme, os quartos vazios e agora tudo volta no tempo e resta apenas o casal. Atualmente, pelo menos, os avós se alegram quando fala e vê os netinhos, via tecnologias modernas. O que fazer? Os filhos não voltam mais, criaram asas (graças a Deus), os netos não lhes pertencem. Só resta uma certeza: queridos filhos, um dia vocês serão vovós também!

 

 

Nota da autora: escrevi este texto no ano de 2015. Hoje, em julho de 2017, tenho cinco netos, pois Sarah e Gabriel chegaram para a felicidade ser ainda maior. E tem mais: em janeiro vou ser avó novamente. Recebi a notícia na noite da última terça-feira, dia 4 de julho, e perdi o sono completamente. Vem ai mais um neto (a ultrassom  indica que é provavelmente um menino). A razão de perder o sono¿ Um misto de felicidade misturada com apreensão. Felicidade porque ser avó é uma das maiores alegrias que uma mulher pode ter , e a preensão fica por conta da triste situação que passa o mundo e especialmente o nosso Brasil.

Nota da autora (2): escrevi este texto no ano de 2015. Hoje, em fevereiro  de 2018, tenho seis netos, pois Sarah, Gabriel e Dante chegaram para a felicidade ser ainda maior. Hoje, dia 07 de fevereiro estou em São Paulo (novamente). Sabem porque¿ Minha filha Luciana está com o marido em viagem de férias e vim ficar com as crianças dela. Claro que estou com babás, cozinheira e um aparato muito grande pra me ajudar. Entretanto as preocupações são enormes. Helena, a minha terceira neta, resolveu no meio da noite, dormir comigo.  Resultado: passei a noite com cuidado pra ela não cair da cama. Recentemente, li uma matéria feita com eterno galã de cinema Alain Delon e no texto ele diz: “quero envelhecer com meus filhos e netos, não quero morrer sozinho”.  Bravo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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